Zen e a Arte: a riqueza da simplicidade - parte 1

Objetos quebrados e recuperados com ouro (kintsugi) são estimados na cultura japonesa

O Zen tem uma relação muito interessante com o Minimalismo, um movimento que começou no mundo da Arte buscando elementos simples, e foi para a vida cotidiana se tornando uma forma de viver bem com simplicidade. No livro Zen e a Cultura Japonesa, de Suzuki Daisetz, há um capítulo sobre Zen e a Arte Japonesa, que explica a relação do Zen e o Minimalismo (dentre outras coisas muito belas também). É minha alegria compartilhar com você a tradução que fiz da maior parte desse capítulo, apresentada aqui em duas partes.


Se você quiser conhecer ou rever alguns conceitos básicos sobre o Zen, poderá encontrá-los na tradução resumida que fiz de outro capítulo do mesmo livro:


Zen: o que é e como se aprende - parte 1

Zen: o que é e como se aprende - parte 2



O Zen e a Arte Japonesa


O Zen não limitou sua influência à esfera espiritual dos japoneses. Ele penetrou em cada faceta da vida cultural do povo.


Na China não aconteceu o mesmo, porém o Zen deu grande ímpeto ao crescimento de uma escola de pintura na dinastia Sung. Um grande número de obras foram levadas ao Japão no seculo XIII, na era Kamakura, quando os monges viajavam constantemente entre os dois países.


Antes de seguir em frente, façamos algumas observações sobre um dos fatores peculiares da arte japonesa, que é intimamente relacionada com a concepção de mundo do Zen.


Entre as coisas que fortemente caracterizam os talentos artísticos japoneses, podemos mencionar o estilo chamado “um canto”, que originou com Bayen (ou Ma Yuan, fl. 1175-1225) um dos maiores artistas de Sung meridional. O estilo “um canto” é psicologicamente associado com o “pincel frugal” dos pintores japoneses, a tradição de reter o mínimo possível de linhas ou traços que representam formas no papel ou na seda. Ambos estão bem de acordo com o espírito do Zen.


Pescador num lago no inverno, Ma Yuan, 1195

Um simples barco de pesca em meio de águas ondulantes é suficiente para despertar na mente do espectador um senso de vastidão do mar e ao mesmo tempo de paz e contentamento - o senso Zen de Solidão. Aparentemente o barco flutua fragilmente. Ele é uma estrutura primitiva sem aparelho mecânico para estabilidade ou ser conduzido pelas ondas turbulentas, nenhum aparelho científico para encarar todos os tipos de tempo - um grande contraste com um transatlântico. Porém essa própria fragilidade é a virtude da canoa pesqueira, em contraste com que sentimos o incompreensível do Absoluto envolvendo a canoa e todo o mundo. Novamente, um pássaro solitário num ramo seco, onde nenhuma linha, nenhuma sombra é desperdiçada, é suficiente para nos mostrar a solidão do outono, quando o dia vai se encurtando e a natureza começa mais uma vez a recolher a rica vegetação do verão. Isto faz a pessoa sentir-se pensativa de alguma forma, mas também dá a oportunidade de se voltar a atenção em direção à vida interior, a qual espalha seus ricos tesouros generosamente ante aos olhos daquele que lhe dá a devida atenção.


Wabi e a sua importância


Aqui temos uma apreciação de desapego transcendente em meio à multiplicidade - o que é chamado wabi no dicionário de termos culturais japoneses. Wabi significa “pobreza”, ou, negativamente, “não estar na moda da sociedade do momento”. Ser pobre, isto é, não ser dependente das coisas mundanas - riqueza, poder e reputação - e ainda sentir a presenca interna de algo do mais alto valor, acima do tempo e da posição social: isto é o que consiste essencialmente o wabi. Colocado em termos práticos da vida cotidiana, wabi é se satisfazer com uma pequena choupana, com um prato de vegetais coletados nos campos da vizinhança, e talvez escutar aos pingos caindo de uma garoa gentil de primavera. Falarei mais sobre wabi posteriormente, permita-me dizer aqui que o culto ao wabi penetrou profundamente na vida cultural do povo japonês. é realmente a adoração à pobreza - provavelmente o culto mais apropriado num país pobre como era o nosso. Apesar dos modernos luxos e confortos ocidentais que nos invadiram, há ainda um anseio erradicável em nós ao culto do wabi. Mesmo na vida intelectual, não é a riqueza de ideias, nem o brilhantismo, nem a solenidade ao conduzir ideias e construir um sistema filosófico que são procurados; mas simplesmente permanecer quieto e contente com a mística contemplação da Natureza e se sentir em casa com o mundo é mais inspirador para nós, ao menos para alguns de nós.


Por mais “civilizados”, por mais que sejamos criados num ambiente artificialmente planejado, todos parecemos ter um anseio inato pela simplicidade primitiva, próxima ao estado natural de vida. Por isso aqueles que vivem na cidade têm prazer acampar no bosque no verão, ou viajar para o deserto ou abrir uma trilha na mata. Desejamos voltar de vez em quando ao seio da Natureza e sentir a sua pulsação diretamente. O hábito Zen da mente de transpassar toda forma de artificialidade humana e agarrar firmemente o que está por trás dela, ajudou aos japoneses a lembrarem-se da terra, a serem sempre gentis com a Natureza, e a apreciarem a sua simplicidade inafetada. O Zen não gosta da complexidade que existe na superfície da vida. A vida em si é simples na justa medida, mas quando é pesquisada pelo intelecto analítico ela apresenta uma complexidade sem paralelos. Com todos os aparelhos científicos ainda não compreendemos os mistérios da vida. Porém, uma vez na sua corrente, parece que somos aptos a compreendê-la, com a sua aparentemente infinita pluralidade e emaranhamento. De maneira bem semelhante, a maior característica do temperamento do povo oriental é a habilidade de conceber a vida de dentro para fora. E o Zen acertou-a em cheio.


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Na parte 2 deste artigo veremos a beleza na imperfeição e na solidão.


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E você, o que pensa sobre a simplicidade na arte ou na vida? Deixe seu comentário mais abaixo.

Até a próxima e fique Zen!

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