Zen e a Arte: a riqueza da simplicidade - parte 2

Objetos quebrados e recuperados com ouro (kintsugi) são estimados na cultura japonesa

Nesta segunda parte deste artigo, você verá um pouco mais sobre Zen, Arte e Minimalismo, ilustrados por dois poemas.


Confira a primeira parte aqui:


Zen e a Arte: a riqueza da simplicidade - parte 1


Se você quiser conhecer ou rever alguns conceitos básicos sobre o Zen:


Zen: o que é e como se aprende - parte 1

Zen: o que é e como se aprende - parte 2



Sabi - a solidão e a sua beleza


Na pintura especialmente, há o desinteresse de resultados formais quando muita atenção ou ênfase é dada à importância total do espírito. O estilo “um canto” e a economia de pinceladas também ajudam a efetivar a transcendência das regras convencionais. Onde você esperaria normalmente uma linha ou uma massa ou um elemento de equilíbrio, você sente falta dele, e exatamente essa coisa desperta em você um inusitado sentimento de prazer. Apesar das deficiências que estão indubitavelmente aparentes, você não sente-as assim; de fato essa imperfeição se transforma num tipo de perfeição. Evidentemente, a beleza não necessariamente expressa a perfeição da forma. Esse tem sido o truque preferido dos artistas japoneses. Incorporar beleza numa forma imperfeita ou mesmo feia.


Quando essa beleza da imperfeição é acompanhada de antiguidade ou uma rudimentação primitiva, temos um vislumbre do sabi, tão estimado pelos conhecedores do Japão. A antiguidade e o primitivismo podem não ser factuais. Se um objeto de arte sugere mesmo superficialmente o sentimento de um período histórico, há sabi nele. Sabi consiste numa rústica despretensão ou arcaica imperfeição, aparente simplicidade ou ausência de esforço na execução, e riqueza em associações históricas (no entanto nem sempre presentes); e, por último, contém elementos inexplicáveis que elevam o objeto em questão ao nível de uma produção artística. Esses elementos geralmente são considerados derivados da apreciação do Zen. Os utensílios utilizados numa sala de chá são na maioria dessa natureza.


O elemento artístico que constitui o sabi, cujo significado literal é “solidão”, é poeticamente definido por um mestre do chá desta maneira:


Quando saio A essa vila de pescadores, Tarde num dia de outono, Nenhuma flor desabrochada vejo, Nem nenhuma folha de bordo tingida*

*árvore que mostra sua beleza no outono com folhas amarelas e vermelhas


Solidão indubitavelmente convida à contemplação sem oferecer nenhuma demonstração espetacular. Pode parecer miserável, insignificante e deplorável, especialmente num contexto moderno ou ocidental. Ser deixado só, sem serpentina voando, sem fogos de artifício estourando, e isso no meio de de uma mostra exuberante de formas infinitamente variadas, e cores incessantemente mutáveis, sem dúvida não é nenhum espetáculo. Pegue um desses esboços de sumie, talvez retratando Kanzan e Jittoku (Han-shan e Shih-teh), pendure-os numa galeria de arte europeia ou americana, e veja que efeito irá produzir na mente dos visitantes. A ideia de solidão pertence ao Oriente e fica em casa no ambiente do seu nascimento.


Solidão não somente se concretiza numa vila de pescadores numa noite de outono, mas também num pedaço de mato verde no começo da primavera - o que muito provavelmente expressa mais a ideia de sabi ou wabi. Pois no mato verde, como lemos nos versos abaixo, há a identificação do impulso de vida em meio a desolação de inverno:


Para aqueles que só rezam para as cerejeiras florirem Como eu gostaria de mostrar a primavera que brilha de um pedaço de mato verde no meio da vila da montanha coberta de neve!

Um dos antigos mestres do chá considera isso como completamente expressivo do sabi, um dos quatro princípios governantes da cerimônia do chá, cha-no-yu. Aqui é só um frágil começo do poder da vida afirmado na forma de um matinho verde, mas quem tem olhos para ver pode rapidamente discernir a primavera disparando-se por baixo da neve proibitiva. Pode-se dizer que que é uma mera sugestão que agita a mente do observador, porém o mesmo é vida em si e não a sua frágil indicação. Para o artista, a vida está aqui do mesmo tanto que está num campo totalmente coberto de verde e flores.


A assimetria na arquitetura


Assimetria é outra característica que distingue a arte japonesa. A ideia é sem dúvida derivada do estilo “um canto” de Bayen. O exemplo mais forte e puro é o plano da arquitetura budista. As principais estruturas, como a Torre Portão, o Salão do Dharma (de Sermões), o Salão do Buddha (Principal), e outros, podem ser dispostos em uma linha reta; mas estruturas de importância complementar ou secundária, às vezes até de maior importância, não são alinhadas simetricamente como asas ao longo da linha principal. Elas podem ser encontradas espalhadas irregularmente pelas terras de acordo com as peculiaridades topográficas. Você pode ser rapidamente convencido deste fato se visitar templos budistas nas montanhas, como por exemplo Santuário Ieyasu (Tosho-gu) em Nikko. Podemos dizer que assimetria é bem característica dessa classe de arquitetura japonesa.


Isso pode ser demonstrado por excelência na construção da sala de chá e nos instrumentos usados em conexão com ela. Veja o teto, que pode ser construído com pelo menos três estilos diferentes, alguns utensílios para servir o chá, e novamente o agrupamento e a disposição do caminho de pedras no jardim. Encontramos tantas ilustrações de assimetria, de certa forma de imperfeição ou do estilo “um canto”.


Alguns japoneses moralistas tentam explicar esse gosto dos artistas japoneses por coisas de forma assimétricas e contrárias às regras convencionais, ou bem geométricas de arte, com a teoria que as pessoas são moralmente treinadas para não serem presunçosas e sempre apagarem a si próprios, e que esse hábito mental de auto aniquilação se manifesta apropriadamente na arte - por exemplo, quando o artista deixa um espaço central importante desocupado. Porém, para a minha cabeça, esta teoria não é muito correta. Não seria mais plausível explicar que o gênio artístico do povo japonês foi inspirado pela forma Zen de ver as coisas individuais como perfeitas em si mesmas e, ao mesmo tempo, como a incorporação da natureza da totalidade que pertence ao Uno?


A doutrina da estética asceta não é tão fundamental como a da estética Zen. Impulsos artísticos são mais primitivos ou inatos do que aqueles da moralidade. A atração da arte vai mais diretamente à natureza humana. Moralidade é reguladora, arte é criativa. Uma é a imposição de fora, a outra é a irrepressível expressão de dentro. O Zen vê a sua inevitável associação com a arte, mas não com a moralidade. O Zen pode ficar sem moral, mas não sem arte. Quando os artistas japoneses criam objetos imperfeitos do ponto de vista formal, eles podem até desejar atribuir ao seu motivo artístico a presente noção de ascetismo moral; mas não precisamos dar muita importância à interpretação deles ou dos críticos. A nossa consciência não é, no final das contas, um padrão confiável de julgamento.


Seja como for, assimetria é certamente uma característica da arte japonesa, o que é umas das razões porque informalidade ou acessibilidade também marcam em um certo grau objetos de arte japonesa. Simetria inspira uma noção de graça, solenidade e imponência, o que novamente é o caso do formalismo lógico ou do empilhamento de ideias abstratas. Os japoneses frequentemente são ensinados a não serem intelectuais e filosóficos, porque a cultura geral deles não é totalmente impregnada com intelectualismo. Este criticismo, eu penso, resulta de alguma forma do amor japonês a assimetria. O intelectual aspira primariamente ao equilíbrio, enquanto os japoneses são aptos a ignorá-lo e inclinarem-se fortemente ao desequilíbrio.


Desequilíbrio, assimetria, o “um canto”, pobreza, sabi ou wabi, simplificação, solidão e ideias relacionadas formam as mais notáveis características da arte e cultura japonesa. Todos eles emanam de uma percepção central da verdade do Zen, que é “O Uno no Múltiplo e o Múltiplo no Uno”, ou melhor, “O Uno permanecendo um no Múltiplo, individualmente e coletivamente.”



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E você, o que pensa sobre a imperfeição e a solidão? Deixe seu comentário mais abaixo.

Até a próxima e fique Zen!

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